KENWA MABUNI… FUNDADOR DO SHOTOKAN?

Todo mundo sabe que o fundador do estilo Shôtôkan foi Gichin Funakoshi (1868-1957). Porém, Kenwa Mabuni (1889-1952), fundador do estilo Shitô-Ryû, não tem recebido os créditos devidos pelas muitas contribuições que fez ao Karate-Dô moderno e inclusive ao estilo Shôtôkan.
De fato, Kenwa Mabuni trouxe para o Japão muitos Kata pouco conhecidos que mais tarde foram adicionados ao estilo Shôtôkan e outros. Não há dúvidas de que Kenwa Mabuni tenha feito contribuições substanciais ao estilo Shôtôkan.
Gichin Funakoshi, originalmente, levou para o Japão quinze Kata. Juntamente com esta série de Kata formalizou algumas técnicas, adaptou para o japonês a nomenclatura utilizada no Karate-Dô e adicionou a essência espiritual à arte. Porém, dificilmente é mencionado o fato de que Gichin Funakoshi enviava seus discípulos antigos, entre eles: Nakayama e Obata, para aprender Kata com Kenwa Mabuni, que por sua vez, ensinava a eles alguns Kata que não faziam parte do currículo de ensino de Gichin Funakoshi e que mais tarde foram modificados e adaptados as técnicas do estilo Shôtôkan.
Quando Gichin Funakoshi, em 1922, introduziu o “Tô-De” (antigo nome do Karate-Dô) no Japão, ensinava os seguintes Kata: Pin’an (Heian) Shodan, Nidan, Sandan, Yondan e Godan; Naihanchi (Tekki) Shodan, Nidan e Sandan; Bassai Dai; Wanshû (Enpi); Chintô (Gankaku); Matsumura Seisan (Hangetsu); Jitte; Jion; e Kôsôkun Dai (Kanku Dai).
Mais tarde, outros Kata foram adicionados ao estilo Shôtôkan: Rohai (Meikyô), Matsukaze (Wankan), Chintei, Unshu (Unsu), Sôchin, Niseishi (Nijûshi-hô), Gojûshi-hô (que posteriormente foi dividido em duas versões Sho e Dai), Ji’in, Kôsôkun Sho (Kanku Sho) e Bassai Sho… Se pesquisarmos todas as fontes literárias ocidentais que tratam sobre o estilo Shôtôkan veremos que em nenhum momento é mencionado qual é a origem destes Kata.
Entre os anos de 1927 e 1928, Kenwa Mabuni ensinou estes Kata aos membros antigos do estilo Shôtôkan (que não tinha este nome até 1936) em Tôkyô quando Gichin Funakoshi, Yasuhiro Konishi e Kenwa Mabuni treinavam juntos e trocavam técnicas e idéias.
O repertório de Kata ensinados por Kenwa Mabuni incluía formas das linhagens Shuri-te, Tomari-te e Naha-te. Portanto, o estilo Shitô-Ryû possui um conjunto de Kata que abarcam estes três estilos considerados originais.
Kenwa Mabuni ensinava um número inacreditável de Kata, que passavam de cinqüenta, no seu “Seito Shitô-Ryû” ou “Shitô-Ryû original”. Algumas autoridades dentro do Karate-Dô dizem que este é um número muito grande de Kata e mais do que é necessário para tornar-se um bom combatente e instrutor de uma disciplina marcial. Contudo, Kenwa Mabuni, conforme relatos, via a si mesmo como um preservador destas formas.
Kenwa Mabuni certamente foi um dos mais destacados praticantes de Kata de todos os tempos. Na década de 30, Kenwa Mabuni publicou um livro sobre seu sistema de ensino dos Kata tornando público seus ensinamentos.
Por outro lado, Gichin Funakoshi acreditava que quinze Kata eram um número suficiente para proporcionar uma metodologia completa e encerrar um sistema de treinamento. Isto está exemplificado em seu livro “Karate-Dô Kyôhan” que contem um sistema original de Kata que incluem quinze formas ao contrário dos mais de cinqüenta do sistema de Kenwa Mabuni.
Contudo, Gichin Funakoshi ao lado de seu filho, Gigo (Yoshitaka), fizeram suas próprias mudanças no Karate-Dô… ampliaram as bases, adicionaram alguns chutes e modificaram certos movimentos. Além disso, Gichin Funakoshi mudou os nomes originais dos Kata da arte de Okinawa para adaptá-los a cultura japonesa, modificando os antigos nomes utilizados na ilha para designar os Kata por nomes com significados claros em japonês. Também modificou o significado da palavra “Tô-De” (“Mãos Chinesas”) para “Karate” (“Mãos Vazias”), nome formalmente aceito em 1936. Esta mudança tinha por objetivo dissociar a arte marcial de Okinawa de sua origem e influência chinesa. O Japão esteve em guerra com a China até 1937 e esta mudança era politicamente necessária.
Gichin Funakoshi e Kenwa Mabuni tiveram alguns mestres em comum. Porém, Kenwa Mabuni teve alguns professores com os quais Gichin Funakoshi não teve contato, tais como: Gokenki e Seiko Fujita. Funakoshi e Mabuni também tinham idades diferentes, cerca de 20 anos, e embora tenham tido os mesmos mestres estudaram sob diferentes circunstâncias e em épocas diferentes. Esta é a razão da diferença no nível do conhecimento com relação aos Kata e seus respectivos Bunkai.
Alguns pesquisadores afirmam que Kenwa Mabuni foi para o Japão em 1929, primeiramente para Kyôtô e que depois se mudou para Ôsaka em respeito à Gichin Funakoshi que já havia fixado residência no local.
Desde que os grupos de Funakoshi, Mabuni e outros passaram a trabalhar de forma independente e não mais sob os cuidados da All Japan Karate-Dô Federation alguns membros do estilo Shôtôkan “esqueceram” Kenwa Mabuni. No entanto, Gichin Funakoshi nunca mostrou nenhum desrespeito ou algo desfavorável que tirasse o mérito do mestre, ao contrário, sempre que se referia a Mabuni, fazia questão de enaltecer seu conhecimento sobre o Karate-Dô.
Ultimamente, Kenwa Mabuni não tem recebido o reconhecimento merecido como um colaborador substancial para o desenvolvimento do Karate-Dô moderno nem do estilo Shôtôkan. Certamente a literatura proveniente dos membros da JKA – Japan Karate Asssociation – não o mencionam.
Kenwa Mabuni realmente não é o fundador do Shôtôkan como o título deste artigo propõe, é sim o fundador do altamente técnico e abrangente estilo Shitô-Ryû Karate-Dô. Contudo… Kenwa Mabuni foi um canal e um preservador de muitas formas ou Kata de Okinawa que hoje formam a base dos Kata avançados do repertório do estilo Shôtôkan e muitos outros.
Artigo original: Fighting Spirit Of Martial Arts/Damian Chambers.
Adaptação/Tradução: Denis Augusto Cordeiro Andretta.
Foto: Cortesia Prof. José Vitorino Aguiar.
A GRADUAÇÃO NAS ARTES MARCIAIS

Vivemos em uma sociedade, ou melhor, em um mundo, que valoriza a “aparência” das coisas, não importando o que se “É” e sim o que se parece “SER”. Valores que outrora tinham um sentido intelectual e prático, ou ético e moral, hoje já não importam, e é bem visto aquele que tem uma boa memória e consegue decorar uma série de livros, ou ainda aquele que possui uma boa oratória.
Dentro deste contexto, nos deparamos com um problema comum a quase todas as artes marciais modernas: o fato de que hoje as pessoas têm procurado as academias para praticar as diversas modalidades “marciais” em busca da aquisição de uma faixa preta ou qualquer outra graduação que aos olhos dos outros sejam sinônimo de “poder”, ou seja, buscam uma espécie de valorização ou vaidade pessoal que nada tem a ver com o verdadeiro objetivo das artes marciais.
São responsáveis por esta deturpação à maioria dos instrutores, professores e “mestres” da atualidade que não se importam com seus alunos e nem querem saber o que eles fazem com os “ensinamentos” que recebem. Estão sim, preocupados com o pagamento das mensalidades e com as taxas cobradas para o exame de graduação, que é o motivo pelo qual dão aulas.
Porém, este não é um problema inerente somente as artes marciais, estende-se a todas as áreas da pedagogia e irá persistir até o dia em que as pessoas pararem de agir a partir de elementos externos e passarem a exercitar suas tendências naturais, pois para que se possa realizar um bom trabalho, em qualquer área, é necessário ter VOCAÇÃO. Aliás, deveríamos dar mais atenção a este assunto, pois na vocação está a chave para a realização pessoal e para a tão sonhada felicidade.
Quando nos deparamos com a triste realidade de nosso sistema educacional, chegamos à conclusão de que as atividades que deveriam ser benéficas, como é caso das artes marciais, acabam prejudicando não somente o praticante, mas também a imagem da arte praticada.
Se pararmos por apenas um instante para refletir, certamente chegaremos a seguinte conclusão: Não basta ter socos, chutes e bloqueios fortes, precisamos também ter princípios fortes; Não basta falar de coisas boas, precisamos e devemos praticá-las; Não basta coragem para o combate é preciso coragem para enfrentar a grande luta da vida, onde os desafios são diários; Não basta dominarmos nosso corpo e achar que isto é suficiente para merecer uma faixa preta, devemos tornar “faixa preta” nossa consciência e nosso coração, pois agindo desta forma pouco importará qual a cor da faixa que ostentamos na cintura, até mesmo porque não andamos uniformizados em todas as ocasiões de nossas vidas.
Todo o praticante de artes marciais deveria fazer aumentar junto com sua graduação também as suas virtudes, para que venha a se tornar uma pessoa de moral, de bom caráter.
Portanto, somente é faixa preta aquele que, sem preconceitos, busca o conhecimento e procura fazer dele uma prática diária; Somente é faixa preta aquele que respeita a sabedoria eterna, seu mestre, seus companheiros de treinamento, sua família e todos seus semelhantes; Somente é faixa preta aquele que busca harmonizar sua personalidade efêmera deixando desta forma transparecer, ainda que de forma distorcida, a beleza de sua alma; Somente é faixa preta aquele que dedica sua vida para ensinar o pouco que sabe aos outros, através seu próprio exemplo; Somente é faixa preta aquele que no meio da confusão moderna ouve a voz da sua consciência e se mantém fiel aos valores que moveram, movem e sempre moverão os grandes guerreiros… ou como está descrito na frase de alguém cujo nome não me lembro, mas que jamais esquecerei as palavras:
“Ser um autêntico faixa preta não é ser mais, mas se tornar menos. Menos agressivo. menos vaidoso, menos autoritário, menos cobiçoso, menos invejoso, menos egoísta, menos apegado, menos ignorante, menos violento, menos…”
-
Artigo original/Foto: Denis Augusto Cordeiro Andretta.
JUSTIFICATIVA PARA UTILIZAÇÃO DE TERMOS JAPONESES NO KARATE-DÔ

Que Karate-Ka não pensou em alguma ocasião porque sendo ocidentais usamos termos japoneses nas classes de Karate-Dô? Pois isto pode ser respondido de várias formas.
A primeira maneira poderia ser: para preservar a tradição e seguir mantendo a ordem estabelecida pelos mestres que nos antecederam, embora esta justificativa não convença à todos.
O segundo motivo poderia ser porque ao utilizar termos desconhecidos pelos alunos o professor adquire um halo de misticismo ou de superioridade mal entendida que deriva da utilização de uma linguagem difícil de entender ou desconhecida pelo principiante. Algo semelhante ocorre em algumas associações profissionais, que ao possuir uma linguagem própria podem mostrar-se inacessíveis ou simplesmente proteger suas informações. Contudo, aqueles que adotassem esta conduta cairiam por seu próprio peso.
Um terceiro argumento, provavelmente o mais real e convincente, é que ao utilizar um vocabulário japonês no Karate-Dô permite que as expressões, termos e comandos desta arte marcial tenham um caráter universal e possam ser compreendidas e utilizadas por todos igualmente, ainda mais quando estas palavras ou comandos têm um significado de origem simbólica.
Porém, devemos esclarecer algo muito importante: Se perguntássemos a um japonês não praticante de Karate-Dô o significado das palavras Bassai Dai, Kime, Bunkai, etc… com certeza ele não saberia defini-las e provavelmente nos diria algo absurdo que não teria nada a ver com o Karate-Do.
Portanto, a utilização de termos japoneses na prática do Karate-Dô, possibilita que os Karate-Ka de qualquer nacionalidade possam entender-se entre si e praticar em harmonia sem ter o idioma como uma barreira.
Da mesma forma, a nomenclatura japonesa permite que um Sensei possa dirigir-se a um grupo de praticantes de diferentes nacionalidades e mediante um simples termo poder fazer-se entender por todos. Isto é possível porque a palavra em japonês atua no ouvinte como um “símbolo”, do qual os receptores conhecem a definição ou significado próprio em seu idioma, caso contrário o Sensei teria que explicar a “palavra” ou “conceito” em tantos idiomas quanto fossem as diferentes nacionalidades presentes, como por exemplo, em um Seminário Internacional.
-
Fonte: Revista Cinturón Negro.
Adaptação/Tradução: Denis Andretta.
Foto: Cortesia Prof. Luiz Gilberto Ribeiro.
ESTILO DE KARATE-DÔ… A CASA ONDE VIVO

Quero expor algo que me parece importante a respeito da existência dos diversos estilos de Karate-Dô. Existem dezenas de estilos, uns mais importantes que outros devido sua divulgação e difusão. Certamente os quatro mais importantes a nível mundial são o Gôjû-Ryû, o Shitô-Ryû, o Shôtôkan e o Wadô-Ryû, pois possuem milhares de seguidores em todo o mundo. No entanto, existem muitos outros igualmente respeitáveis, porém menos conhecidos ou difundidos. No entanto, todos são estilos de Karate-Dô perfeitamente estabelecidos e organizados. O excessivo enfoque em um único estilo, sem olhar para os demais pode ser um erro. Ás vezes pode produzir-se um encarceramento dentro do próprio estilo se não se consegue entender sua importância e seus limites.
Os praticantes de Karate-Dô pertencem a um ESTILO, e assim deve ser, não havendo outra solução para o aperfeiçoamento das técnicas. O estilo de Karate-Dô é como nosso domicílio, a casa onde vivemos, o local para o qual regressamos cada noite, onde fixamos nossa residência, onde podemos ser encontrados, onde nos sentimos seguros, sabendo onde está cada coisa e o que se deve ou não fazer… pois não se pode viver em uma cidade sem morar em alguma de sua ruas e da mesma forma não se pode praticar Karate-Dô sem pertencer a um estilo.
Porém, se nos fechássemos e não saíssemos de nossa casa estaríamos perdendo a possibilidade de desfrutar de muitas coisas boas e interessantes que existem em outros locais de nossa cidade: museus, cinemas, restaurantes, etc… quando falamos de estilo de Karate-Dô acontece o mesmo. Ainda que sigamos uma determinada linha técnica dentro do estilo ao qual pertencemos não devemos deixar por isso de conhecer coisas boas, interessantes e complementares que podem existir, e é certo que existem, em outros estilos.
Neste contexto, é vital que o Professor pense desta forma e ensine isto a seus alunos, mesmo que as técnicas aprendidas sejam poucas e influenciadas pelas características do estilo ao qual pertencemos. Não trata-se de ter muitos Professores, pois isto é impossível e além do mais perderíamos toda a identidade do estilo praticado e também iríamos contra alguns dos principais valores do Karate-Dô que são e lealdade e a fidelidade. Porém, o Professor deve preocupar-se em praticar, aprender e ensinar algumas técnicas interessantes e complementares ainda que não pertençam a seu estilo.
É dever do Professor, insisto, não fechar-se em seu estilo e conhecer algumas técnicas dos outros que sejam interessantes e necessárias para poder ensiná-las, pois assim o Karate-Dô e seus ensinamentos serão enriquecidos, porém nunca perda de vista seu lar, sua casa… seu estilo.
Artigo original por: Salvador Herráiz.
Adaptação/Tradução/Foto: Denis Andretta.