A ética no Karate-Dô

WKF - WORLD KARATE FEDERATION
(FEDERAÇÃO MUNDIAL DE KARATE)
Tradução: Abel Figueiredo e Jorge Fonseca (1995)
O KARATE é fundamentalmente BUDÔ e assim sendo, o seu código ético é inspirado pelo do BUSHIDÔ. Neste código, a honra e a lealdade são dois dos seus princípios mais importantes. Porém, não menos significativos, temos também: justiça, coragem, bondade e benevolência, sinceridade, correção e respeito, humildade e modéstia e especialmente auto-controle em todas as circunstâncias.
Estes valores são necessários para a vida em comunidade. No entanto, apesar de representarem a arquitetura espiritual do Homem, tendem a desaparecer nas sociedades modernas. Assim, a primeira grande missão de qualquer Faixa Preta é a de renovar estes princípios, tornando-os vivos com o seu comportamento exemplar.
HONRA - MEIYO
A dignidade fatal. Sem honra não poderá haver combate. Tudo depende disto. Significa possuir e respeitar o código ético de forma justa e dignificante.
“A honra é a poesia do dever.”
Alfred de Vigny
LEALDADE - CHUJITSU
A honra não pode ser usada sem sinceridade para com determinados ideais e para com as pessoas que a possuem. Ela é imprescindível para cumprirmos a nossa obrigação e mantermos a nossa palavra.
“A lealdade é necessária no bem-estar, é imprescindível na desgraça.”
Sêneca
SINCERIDADE - SEIJITSU
A lealdade necessita de sinceridade nas nossas palavras e ações, porque a intimidade não pode existir sem ela. A mentira e a ambigüidade produzem a suspeita que é fonte de disputas e rixas. A saudação no KARATE é uma expressão desta sinceridade. Ela é um sinal daquele que não oculta os seus ideais e sentimentos e consegue ser ele próprio.
“As palavras sinceras não são elegantes, as palavras elegantes não são sinceras.”
Lao Tse
CORAGEM - YUUKI
A força de espírito que nos faz resistentes ao perigo e sofrimento, chama-se coragem. Significa respeitar, sob todas as circunstâncias, tudo o que nos possa parecer bem e ser capaz de ultrapassar os nossos receios e medos. Valentia, entusiasmo e, sobretudo, vontade, são pilares de coragem.
“É preferível viver um dia como um leão do que 100 anos como um carneiro.”
Provérbio
BONDADE e BENEVOLÊNCIA - SHINSETSU
A bondade e a benevolência são sinais de coragem e revelam um alto grau de humanismo. Dispõem-nos num estado de espírito que nos conduz à ajuda mútua e com a atenção dirigida aos outros, ao futuro, ao ambiente e ao respeito pela vida.
“A benevolência encontra-se no caminho dos deveres”
Mencius
MODÉSTIA e HUMILDADE - KEN
A bondade e benevolência não podem ser expressas sem moderação na auto-avaliação. A única garantia de modéstia é a capacidade de ser humilde, sem orgulho ou vaidade. Quer dizer, ser autêntico e real sem falsas imagens de si mesmo.
“Se os rios e os mares imperam sobre todos os riachos, é só porque eles se mantêm abaixo do nível destes.”
Lao Tse
JUSTIÇA - TADASHI
Justiça significa seguir e cumprir deveres e nunca se afastar deles ou deixá-los. Lealdade, honra e sinceridade são pilares da justiça, capacitando-a de sensatez para as decisões corretas.
“Ninguém perderá no caminho correto”
Goethe
RESPEITO - SONCHÔ
A justiça evoca o respeito aos olhos daqueles que nos rodeiam. Caracteriza a capacidade de tratar as pessoas e as coisas com consideração, não olhando à sua idade, mérito ou religião.
Correção no comportamento é expressão do respeito pelos Homens sem reparar nas suas riquezas, fraquezas e posição social.
Etiqueta e cerimonial são a expressão do respeito e da correção.
“Aquele que não respeita a Deus e a si próprio, embora respire, não vive.”
Provérbio Sânscrito
AUTO-CONTROLE - SEIGO
Esta deveria ser a característica incondicional de todos os KARATE-KA. Significa o perfeito controle do nossos instintos e sentimentos, sendo um dos alvos na prática de uma Arte Marcial. Além de tudo mais, os nossos sucessos estão dependentes disso. O dever e a honra na moral tradicional estabelecida para o KARATE-DÔ, são a base para conseguir esta perfeição.
“Um lago reflete as estrelas melhor do que um rio.”
Th. Jouffroy
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Adaptação/Agregados: Denis Augusto Cordeiro Andretta.
A GRADUAÇÃO NAS ARTES MARCIAIS

Vivemos em uma sociedade, ou melhor, em um mundo, que valoriza a “aparência” das coisas, não importando o que se “É” e sim o que se parece “SER”. Valores que outrora tinham um sentido intelectual e prático, ou ético e moral, hoje já não importam, e é bem visto aquele que tem uma boa memória e consegue decorar uma série de livros, ou ainda aquele que possui uma boa oratória.
Dentro deste contexto, nos deparamos com um problema comum a quase todas as artes marciais modernas: o fato de que hoje as pessoas têm procurado as academias para praticar as diversas modalidades “marciais” em busca da aquisição de uma faixa preta ou qualquer outra graduação que aos olhos dos outros sejam sinônimo de “poder”, ou seja, buscam uma espécie de valorização ou vaidade pessoal que nada tem a ver com o verdadeiro objetivo das artes marciais.
São responsáveis por esta deturpação à maioria dos instrutores, professores e “mestres” da atualidade que não se importam com seus alunos e nem querem saber o que eles fazem com os “ensinamentos” que recebem. Estão sim, preocupados com o pagamento das mensalidades e com as taxas cobradas para o exame de graduação, que é o motivo pelo qual dão aulas.
Porém, este não é um problema inerente somente as artes marciais, estende-se a todas as áreas da pedagogia e irá persistir até o dia em que as pessoas pararem de agir a partir de elementos externos e passarem a exercitar suas tendências naturais, pois para que se possa realizar um bom trabalho, em qualquer área, é necessário ter VOCAÇÃO. Aliás, deveríamos dar mais atenção a este assunto, pois na vocação está a chave para a realização pessoal e para a tão sonhada felicidade.
Quando nos deparamos com a triste realidade de nosso sistema educacional, chegamos à conclusão de que as atividades que deveriam ser benéficas, como é caso das artes marciais, acabam prejudicando não somente o praticante, mas também a imagem da arte praticada.
Se pararmos por apenas um instante para refletir, certamente chegaremos a seguinte conclusão: Não basta ter socos, chutes e bloqueios fortes, precisamos também ter princípios fortes; Não basta falar de coisas boas, precisamos e devemos praticá-las; Não basta coragem para o combate é preciso coragem para enfrentar a grande luta da vida, onde os desafios são diários; Não basta dominarmos nosso corpo e achar que isto é suficiente para merecer uma faixa preta, devemos tornar “faixa preta” nossa consciência e nosso coração, pois agindo desta forma pouco importará qual a cor da faixa que ostentamos na cintura, até mesmo porque não andamos uniformizados em todas as ocasiões de nossas vidas.
Todo o praticante de artes marciais deveria fazer aumentar junto com sua graduação também as suas virtudes, para que venha a se tornar uma pessoa de moral, de bom caráter.
Portanto, somente é faixa preta aquele que, sem preconceitos, busca o conhecimento e procura fazer dele uma prática diária; Somente é faixa preta aquele que respeita a sabedoria eterna, seu mestre, seus companheiros de treinamento, sua família e todos seus semelhantes; Somente é faixa preta aquele que busca harmonizar sua personalidade efêmera deixando desta forma transparecer, ainda que de forma distorcida, a beleza de sua alma; Somente é faixa preta aquele que dedica sua vida para ensinar o pouco que sabe aos outros, através seu próprio exemplo; Somente é faixa preta aquele que no meio da confusão moderna ouve a voz da sua consciência e se mantém fiel aos valores que moveram, movem e sempre moverão os grandes guerreiros… ou como está descrito na frase de alguém cujo nome não me lembro, mas que jamais esquecerei as palavras:
“Ser um autêntico faixa preta não é ser mais, mas se tornar menos. Menos agressivo. menos vaidoso, menos autoritário, menos cobiçoso, menos invejoso, menos egoísta, menos apegado, menos ignorante, menos violento, menos…”
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Artigo original/Foto: Denis Augusto Cordeiro Andretta.